domingo, 29 de junho de 2008

A aba esquerda da qualidade da gestão

Texto: Luís Cabral


A qualidade média da gestão é baixa, mas há empresas, embora poucas, que são tão bem geridas como as melhores companhias mundiais.

Muito se fala em Portugal sobre a qualidade da nossa gestão de empresas. Uns, dizem que temos décadas de atraso em relação à Europa; outros, apontam vários casos de sucesso como prova de que os nossos melhores gestores são tão bons como os melhores. O que falta é uma análise sistemática, se possível quantitativa, da prestação dos gestores portugueses.

Um estudo recente de Nick Bloom (Universidade de Stanford) e John van Reenen (London School of Economics) vem em parte colmatar esta falta de dados. Com o apoio logístico da McKenzie (que nos últimos anos produziu uma série de estudos deste tipo), Bloom e Van Reenen comparam a qualidade da gestão em vários países, dos Estados Unidos à China, do Reino Unido à Índia – incluindo Portugal.

A qualidade média da gestão é baixa, mas há empresas, embora poucas, que são tão bem geridas como as melhores companhias mundiais Texto: Luís CabralMuito se fala em Portugal sobre a qualidade da nossa gestão de empresas. Uns, dizem que temos décadas de atraso em relação à Europa; outros, apontam vários casos de sucesso como prova de que os nossos melhores gestores são tão bons como os melhores. O que falta é uma análise sistemática, se possível quantitativa, da prestação dos gestores portugueses.
Um estudo recente de Nick Bloom (Universidade de Stanford) e John van Reenen (London School of Economics) vem em parte colmatar esta falta de dados. Com o apoio logístico da McKenzie (que nos últimos anos produziu uma série de estudos deste tipo), Bloom e Van Reenen comparam a qualidade da gestão em vários países, dos Estados Unidos à China, do Reino Unido à Índia – incluindo Portugal.

Em cada país, a equipa de Bloom e Van Reenen entrevistou dezenas de empresas, seguindo um guião detalhado que procura determinar o conhecimento e aplicação de várias técnicas de gestão. Com base nas respostas, os autores calcularam uma pontuação média para cada empresa. Finalmente, juntando os resultados a nível empresarial, obtiveram uma distribuição da qualidade de gestão para cada país.

A qualidade de gestão é baixa

Estudos deste tipo estão sujeitos a muitas críticas; mas como dizia Keynes, mais vale estar aproximadamente correcto do que exactamente errado (agradeço ao professor António Pinto Barbosa esta máxima do economista máximo). Ter alguns dados, mesmo que incompletos, é melhor do que não ter dados nenhuns.

Não será grande surpresa saber que o nível médio de qualidade de gestão é mais alto nos Estados Unidos do que em Portugal, mais alto em Portugal do que na China. A primeira surpresa – pelo menos para este economista – é que, excluindo em cada país as 25% empresas com menor nota, as diferenças entre países são muito menores. Por outras palavras, a grande diferença entre Portugal e os Estados Unidos reside no número de empresas com qualidade de gestão muito baixa: muitas em Portugal, poucas nos Estados Unidos. Trata-se daquilo que gosto de chamar “o problema da aba esquerda” (a aba esquerda de uma distribuição indica a probabilidade de valores baixos do índice em questão).

Mais concorrência

Estes resultados são consistentes com ambas as perspectivas acima indicadas: a qualidade média da gestão em Portugal é baixa; mas isto não obsta a que as empresas portuguesas mais bem geridas o sejam tão bem como as melhores empresas mundiais. […]

Adaptado Portugal em Exame 2008

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